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Os Rios que Somos

Teatro Epidauro
Teatro Epidauro

André de Araújo*

Grécia Antiga à Renascença - Módulo I

Somos o que somos. Mas somos também o que fomos e o que seremos. Nas águas dos rios de Heráclito[1] que escorrem pelas margens do tempo, não há como se lavar duas vezes do mesmo banho, nem beber do mesmo líquido. A existência é fatalmente assim, inédita a cada instante, mesmo em suas reprises, seus repisos, suas rememorações. Há Pitágoras[2] em Schrödinger[3], há Arquimedes[4] em Einstein[5]. A linha do tempo não parece linha reta. É recheada de espirais, elipsoidais, helicoidais. O novelo da história do teatro desenrola-se assim, meio que anarquicamente, com fendas quânticas que ligam e religam eras, Heras e Eros.
 

A primeira coisa a ser observada é que não apenas o futuro - 'a onda do futuro' -, mas também o passado, é visto como uma força, e não, como em praticamente todas as nossas metáforas, como um fardo com que o homem tem de arcar e de cujo peso morto os vivos podem ou mesmo devem se desfazer em sua marcha para o futuro. (Hannah Arendt)


Se tudo é tão quebradiço e quântico, onde estão as origens, as raízes? Ovo ou galinha? Talvez o início seja simplesmente o início do desejo, da curiosidade, do querer da alma humana saltando pela janela infinita do conhecimento. De desejos loucos e flamejantes é nascido o teatro, a pira crepitante de Dionísio[6]. O teatro nasceu há tanto tempo... Todavia também nasceu ontem, para quem ontem o descobriu. Recontar é reviver, atualizar, ressignificar, redescobrir.

Uma história viva é uma história que encara o hoje sem medo das tensões, dos choques e dos deslocamentos. Como é bom então ouvir retumbar os ditirambos[7] ritualísticos das épocas que, quase sem saber, vivemos. Em tempos de hipertextos, hiperlinks e hiperespetáculos, o que é um hipermito, um hiperherói, uma hipertragédia? Por que não outros corpos, de outros mundos, para recarregar esse corpo contemporâneo cansado de pendurar tanta informação em tempo real, tanto boato, tanto apocalipse?

Nesses tempos nossos, digitalizados, em que ainda pouco sabemos das educações do futuro, cabe a nós desvendar essas outras esfinges, antes que nos devorem. O que seria uma educação transdisciplinar, desenvolvida em linguagens diversas, formatos polifônicos, que se inscreve não apenas na mente, mas nos ossos, na respiração, no tônus muscular?

O convite à História Viva do Teatro é um convite a essas reflexões todas, e outras que ainda não sabemos elaborar. Quão delicioso é o paradigma teatral, uma arte que se manifesta no tempo presente e, ao mesmo tempo, já se torna passado com o fechar das cortinas. Por isso, o conflito é permanente e eterno. Dia após dia há uma nova sessão, com novos espectadores e novos atores, pois, de novo Heráclito, nós próprios já não somos os mesmos ao entrarmos no rio novamente.

Sobre saber do mundo estando no mundo: um menino perguntou o que acontecia lá dentro; responderam-lhe que era uma peça de teatro, uma coreografia de dança, um número de circo. Ele espiou pela fresta grátis da curiosidade e descobriu outro jeito de olhar. Fugiu com esse mundo, com esse circo. Fugiu nada, chegou. Rompeu a pele frágil da banalidade e girou com os mitos, com as máscaras, com o sentimento puro e combativo de viver o presente, contando histórias que todos já sabem, mas que nunca ouviram. A curiosidade matou o gato de Schrödinger, porém também não matou.

Ontem, hoje e amanhã são divisões até compreensíveis, mas não bastam. E ser ao mesmo tempo o agora e o sempre? Na História Viva do Teatro, contada sob a ilusão farsesca da cronologia, desfilam trans-séculos, trans-mídias, trans-portes de desejos nos palcos holográficos da contemporaneidade.

A História Viva do Teatro, em cartaz no Sesc Bom Retiro de maio a junho de 2019, procura pelos teatros, pelas faces efêmeras do teatro que se renovam a cada estreia, a cada novo rio de Heráclito. Todos são bem vindos nesse ditirambo quântico, para se derramarem sobre espetáculos, intervenções, aulas abertas e oficinas, redescobrindo e reinventando as maneiras de apreender, de  re-existir e de re-presentear.

* André Araújo técnico da área de teatro do Sesc Bom Retiro, curador do projeto História Viva do Teatro.

[1] Heráclito (c. 540-470 a.C.) foi um filósofo grego pré-socrático.

[2] Pitágoras (c. 570 – c. 495 a.C.) foi um filósofo e matemático grego.

[3] Erwin Rudolf Josef Alexander Schrödinger  (1887-1961) foi um físico teórico austríaco, conhecido por suas contribuições à mecânica quântica, especialmente a equação de Schrödinger, pela qual recebeu o Nobel de Física em 1933. Propôs o experimento mental conhecido como o Gato de Schrödinger.

[4] Arquimedes de Siracusa (c. 287-212 a.C.) foi um matemático, físico, engenheiro, inventor, e astrônomo grego.

[5] Albert Einstein (1879-1955) foi um físico teórico alemão que desenvolveu a teoria da relatividade geral, um dos pilares da física moderna ao lado da mecânica quântica.

[6] Na mitologia grega, Dionísio, filho de Zeus, é uma divindade que remete à festividade, ao vinho e ao teatro.

[7] Ditirambo é o nome dado às práticas ritualísticas corais gregas em louvor a Dionísio. É tido como uma das origens do teatro e da dança como conhecemos hoje, ou mesmo uma de suas raízes em comum.

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