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O encontro entre harmonia e dano no espetáculo Harm-ony

Foto: Mila Ercoli
Foto: Mila Ercoli

Após residência iniciada em abril, o espetáculo Harm-ony, parceria entre as diretoras Marcela Levi e Lucía Russo – Improvável Produções – estreia dia 9, quinta-feira, às 21h no Sesc Avenida Paulista.

Por meio da dança contemporânea, as pessoas são convidadas ao questionamento sobre as relações entre a materialidade, os corpos e os diferentes universos que se articulam de modo heterogêneo, mas em rede por um ponto em comum: a partilha de posições divergentes, mas que estão dispostas a serem compartilhadas.

Performers e público dividem os espaços do andar Arte II, entre caminhadas vagarosas, sussurros, risadas, onde há quem duble vozes, quem baila “cheek to cheek” ou quem simplesmente pausa diante do movimento. Assim acontece Harm-ony, entre corpos vestidos e nus. 

O projeto é um processo de criação que se repete com singularidade, pois une as experiências de performers locais a cada montagem. No ano de 2018, em coprodução com o fundo Iberescena/Funarte e o centro NAVE, na programação do Seminario Danza Politica y Activismo, em Santiago do Chile, como 1º ato de Sacar La Lengua, a apresentação articulou diferença e distância: “mesmo não falando a mesma língua, ainda assim é possível construirmos algo juntos”, fala de uma das artistas chilenas durante os ensaios.

A residência no Sesc Avenida Paulista, teve início em abril com a seleção de 10 performers junto às diretoras e colaboradores da Improvável Produções, seguida por encontros diários no período de 2 semanas antes da primeira apresentação. 

O site specific tem a intenção de trazer reações sobre a transparência do prédio – que traz em seu conceito arquitetônico uma reciprocidade de movimento com a cidade – e a opacidade dos corpos. Etérea, a dança aparece aqui como experimento de algo não funcional e sem tempo determinado, como uma exposição ao contágio das relações.

Foto:  Isabel Ortiz

 

Ainda, segundo as diretoras, “este encontro informa e encoraja a apostar no dissenso como algo a se praticar em sociedade. Estar em dissenso, ou seja, estar com um outro, conviver”. A palavra harmony, fragmentada, tem uma relação direta com a essência do espetáculo.
Harm-ony é uma quebra de articulação e movimento: um encontro entre harmonia e dano.

Confira um pouco sobre o trabalho, com as palavras das diretoras:

O projeto Harm-ony fez parte da programação do “Seminario Danza Politica y Activismo”, em 2018, no Chile, como 1º ato do projeto “Sacar La Lengua”. Como foi essa experiência?

Harm-ony é um projeto de abertura: trabalhamos, Marcela Levi & Lucía Russo, há 10 anos, continuadamente/insistentemente no Rio de Janeiro, sob o nome de Improvável Produções. “Improvável” porque trabalhar com arte no Rio de Janeiro, sobretudo hoje em dia, é algo que não está suposto acontecer, não é mesmo?

Esse projeto prevê a participação de artistas locais. A cada remontagem a peça recebe um elenco diferente, quer dizer, corpos, humores, intensidades e vibrações diferentes. A primeira montagem, viabilizada com a coprodução do fundo Iberescena/Funarte e o centro NAVE, aconteceu em Santiago do Chile. Em certo momento, durante os ensaios, uma artista chilena falou: “mesmo não falando a mesma língua, ainda assim é possível construirmos algo juntos” É disso que se trata Harm-ony, de articular a diferença, a distância.

Poderiam falar um pouco sobre a seleção de performers e da residência?

Além da montagem de uma peça de dança, Harm-ony é um espaço de coexistência entre estranhos. A peça não tem um elenco fixo. A cada remontagem nós - Marcela Levi, Lucía Russo + 3 performers colaboradores da Improvável - fazemos uma chamada pública e selecionamos 10 artistas locais que integrarão o elenco após duas semanas de encontros diários. 

Do site specific de Harm-ony e a arquitetura do Sesc Avenida Paulista, um edifício que tem como proposta a sustentabilidade, a refletividade e transparência. Podemos encontrar um diálogo do espetáculo com o trinômio "ARTE-CORPO-TECNOLOGIA" em um aspecto mais orgânico com a cidade?

Não vemos muito eco em relação à transparência em nosso trabalho, prezamos a opacidade. Mas estamos animadas em confrontar a transparência do prédio com a opacidade dos corpos. Esperamos que a peça seja entrevista entre um corpo e outro. 

Efêmera, portanto sustentável? A dança é efêmera, ou seja, vendemos uma experiência, não um produto funcional com um tempo de vida determinado. A dança, justamente por ser efêmera, impalpável, resta nos corpos expostos a ela. Invade, como um vírus, os corpos que se expõem ao contágio.

A quebra da palavra “harmony” tem relação direta com a essência do espetáculo?

Sim! Prezamos muito as quebras! Sem quebra como articular, dobrar, mover?
A palavra “harmony” carrega em si a palavra “harm” e isso é muito curioso. Partimos daí: desse encontro da harmonia com o dano. Esse encontro informa e nos encoraja a apostar no dissenso como algo a se praticar em sociedade. Estar em dissenso, ou seja, estar com um outro, conviver.

Como é essa relação da dança e a materialidade, trazendo o corpo como ato político? Isso se encaixa em HARM-ONY?

Esse curioso encontro das palavras "harmonia" e "dano" embalam e instigam essa dança que se vira do avesso para abalar o aparentemente bem-intencionado desejo de consenso das "pessoas de bem". Uma sociedade igualitária é aquela em que todos falam a mesma língua? Seria o consenso um ato, em última instância, autoritário?

O dano incrustado na harmonia nos convida a pensar que precisamos de diferença, de fricção, de estranhos, de desarmonia, de "idiotas", daqueles que não compreendemos. Precisamos de Outros, ou seja, daqueles que nos dificultam a chegar rapidamente a uma conclusão do que seria bom ou não para todxs.  

De acordo com a filósofa belga Isabelle Stengers, a figura conceitual do “idiota”, proposta por Deleuze, nos faz desacelerar, abre um espaço para a hesitação diante da pressuposição de sabermos daquilo que sabemos.  Stengers nos convida a pensar a igualdade não como equivalência, reciprocidade, representação, mas como garantia da presença de línguas/corpos heterogêneos. Se afastando das "boas intenções" que sustentam o desejo de um “bem comum”, nos convida a ouvir o murmúrio do idiota que diz “Há algo mais importante" e nos instiga a pensar na possibilidade de partilha de um “não sabido” constituído pelo múltiplo, pelas posições divergentes de mundo que poderiam eventualmente ser articuladas. 

 

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Improvável Produções

Marcela Levi e Lucía Russo fundaram, em 2010, a Improvável Produções, no Rio de Janeiro. A autoria compartilhada é responsável, entre outros, pela criação e produção das peças de dança “Natureza Monstruosa”, “Mordedores”, “Boca de Ferro”, “Deixa Arder” e “HARM-ONY”, além da intervenção urbana “Sandwalk with me”. Concomitantemente à pesquisa coreográfica desenvolvida pela Improvável Produções, Levi & Russo orientam oficinas em escolas, centros de arte e universidades no Brasil, na Europa e na América Latina. Em março, participaram da 6ª MITsp. 

Marcela Levi é coreógrafa e performer. Nos últimos vinte anos vem desenvolvendo projetos que dissolvem as fronteiras entre a dança e as artes plásticas, construindo uma linguagem que perturba a hierarquia entre corpo e objeto: o corpo se torna objeto e objetos se tornam corpo. Através de seu trabalho, Levi cria uma zona de ambiguidades e deslocamentos. Formada pela Escola de Dança Angel Vianna (Rio de Janeiro), Levi foi artista residente no centro de arte Les Recollets (França), no “Programa Artistas en Residencia - Casa Encendida/Aula de Danza” (Espanha), no Espaço Cultural Azala, (Espanha), no “Laboratório de Criatividade Urbana ON.OFF”, “Guimarães 2012 - Capital Européia da Cultura” (Portugal), artista convidada no programa “Rio Occupation London”, na London Cultural Olympiad, promovido pela SEC RJ (Londres) e recebeu a bolsa Batiscafo (Cuba).

Lucía Russo é coreógrafa, performer e gestora cultural. Estudou psicologia na Universidade de Buenos Aires, dança contemporânea no European Dance Development Centre (HOL) e no Centro Cultural Rojas (ARG). Se move entre a criação artística, os processos de transmissão e intercâmbio e a gestão cultural. Seus trabalhos se caracterizam por envolver diversas formas de ação colaborativa e provocar encontros, choques, desvios, dissonâncias e diversões, apresentados em vários festivais e centros de arte na América Latina e Europa. Integrou a Rede Sul-americana de Dança (2001/10); coordenou o projeto “Diálogos: Intercâmbio de processos de criação em dança contemporânea” (2006/8) na América Latina; e integrou a equipe da ocupação “Manifesta!”, no Teatro Cacilda Becker FUNARTE em 2011. Foi Professora de “Composição Coreográfica no IUNA” (Instituto Universitário Nacional de Arte) em Buenos Aires entre 2006/9 e professora convidada na Universidade Nacional 3 de Fevereiro em Buenos Aires. Entre 2010 e 2013 desenvolveu o projeto de formação de plateia “Futuros Espectadores”, articulando e criando pontes entre teatros, artistas e escolas públicas de ensino fundamental e ensino médio, coletivos e associações culturais no Rio de Janeiro.

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