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Pinto D'Água Carijó, uma das aves mais raras e desconhecidas do Brasil

Pinto d’água carijó | Foto: Guilherme Cunha e Thaisa Senne
Pinto d’água carijó | Foto: Guilherme Cunha e Thaisa Senne
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Descrição da imagem. Foto colorida na horizontal. A imagem mostra uma ave pequena, com penas rajadas num misto de cores branco, preto e marrom, olhos alaranjados, rabo bem curto e bico pontudo. Ela está ambientada em um um jardim com folhas secas sobre pedra e, ao fundo, folhagens e plantas. Fim da Descrição.

 

A observação de aves é uma das atividades de contemplação da natureza que mais cresce no mundo, praticada por milhões de pessoas das mais variadas idades, principalmente nos Estados Unidos (EUA) e Europa. O Brasil está acompanhando esta tendência e o estado de São Paulo se destaca neste cenário por possuir o maior número de observadores e fotógrafos de aves de todos os estados da federação, com mais de dez mil cadastros no Wikiaves.

Este público vem produzindo uma quantidade muito grande de informações sobre as aves do país, como fotos, vídeos e listas de espécies, disponibilizando este material em plataformas ornitológicas* online e de acesso livre, como Wikiaves, eBird e Xeno-canto, contribuindo de maneira significativa com pesquisas e ações de conservação, na perspectiva da ciência cidadã, processo que promove a interação entre os cientistas e os cidadãos e permite que estes se envolvam em atividades formais de pesquisa como uma experiência educativa e de engajamento social.

O interesse pela observação e a fotografia de aves pode surgir de diferentes formas, como ser passada entre familiares, por meio do contato com áreas verdes no ambiente em que se vive, exposições fotográficas e, principalmente, por meio de projetos de educação ambiental que entendem as aves como tema gerador de reflexões e vivências. Um exemplo é o projeto Avifauna, realizado há 26 anos pelo Sesc Bertioga. Durante as atividades realizadas no Sesc, os participantes têm uma noção geral sobre as características principais das aves, dos ambientes onde elas vivem e sobre conservação, tendo a oportunidade de fazer saídas de campo para observação, onde é possível associar a teoria à prática, realizando uma atividade em contato com a natureza. O Sesc Bertioga está localizado em uma área estratégica e privilegiada da Mata Atlântica, sendo cercado por diferentes áreas naturais da planície costeira, com uma alta biodiversidade.

O objetivo do projeto é estimular que as pessoas tenham uma nova visão e percepção sobre as aves e o ambiente de maneira geral, reparando mais nestes animais que convivem conosco no dia a dia, desde áreas urbanas de grandes cidades até o quintal de nossas casas. O mais interessante é que não são apenas os participantes que são estimulados a terem esta nova percepção sobre as aves, mas todas as pessoas que de alguma forma estão ligadas ao Sesc, incluindo os seus funcionários e prestadores de serviços.

Foi graças a essa percepção que um casal de funcionários notou a presença de uma pequena ave circulando no Sesc Bertioga. O fato de ser uma ave diferente das observadas no dia a dia, com um comportamento de andar e se esconder entre as plantas do quintal, despertou o interesse de Thaísa e Guilherme por fotografar a ave, enviando o material para a equipe de Educação para Sustentabilidade para saber sobre sua espécie. Logo quando recebeu a imagem, o agente de educação ambiental e biólogo, Marcelo Bokermann, viu que se tratava de um pinto-d’água-carijó (Coturnicops notatus), uma das aves mais raras e desconhecidas do Brasil. Com uma ocorrência ampla na América do Sul, esta pequena saracura era conhecida apenas para os estados de São Paulo e Rio Grande do Sul, mas com poucos relatos, sendo o primeiro registro para o litoral paulista.

Passada a euforia da descoberta, a equipe de agentes de educação ambiental capturou a ave para avaliar seu estado de saúde. Como ela se encontrava em bom estado, foi acionado o ornitólogo, Fabio Schunck, para colocar uma anilha na ave. As anilhas são anéis metálicos com marcação numérica colocada na pata dos animais. Elas não causam nenhum problema para as aves, que logo se acostumam, sendo um método importante de pesquisa, pois pode indicar algum tipo de deslocamento e migração caso ela seja avistada novamente. Logo, a ave foi colocada em uma caixa de transporte, onde se alimentou de algumas larvas de besouro e foi levada até a Reserva Natural Sesc Bertioga, área natural protegida pelo Sesc, onde foi solta em um ambiente alagado, típico de algumas saracuras. No mesmo dia da captura, a ave foi solta, mas, ao abrir a caixa, ela ficou desconfiada e foi saindo lentamente, analisando a situação, até se sentir segura e desaparecer na vegetação natural, deixando toda a equipe com sensação de dever cumprido.

É difícil saber ao certo o verdadeiro motivo do aparecimento desta ave rara no Sesc Bertioga. Ela pode ter sido levada pelos fortes ventos que estavam sobre o litoral paulista na ocasião, devido à passagem de uma frente fria, ou pode ter errado seu caminho, se perdendo, e entrou caminhando no Sesc, que está cercado de áreas naturais alagadas. Independentemente do motivo, sabemos agora que esta pequena saracura ocorre em Bertioga a partir da contribuição de moradores locais, um passo importante para se conhecer melhor esta ave enigmática e atuar na sua proteção. Esta é uma incrível descoberta ornitológica para o estado de São Paulo e para o Brasil, pois a ave é uma espécie praticamente desconhecida para os pesquisadores.

Este registro mostra a importância de projetos que aproximam as pessoas da natureza, como o Avifauna, do Sesc Bertioga, no qual os participantes contribuem positivamente com a obtenção de informações relevantes para a ciência e para a conservação das aves.

O projeto Avifauna foi criado em 1993 no Sesc Bertioga e é um dos mais antigos projetos ambientais do Sesc SP. Ele consiste em um conjunto de ações que vão desde os estudos das espécies de aves que ocorrem no centro de férias e seus arredores, ao plantio de espécies da flora que auxiliem na atração e permanência das espécies na unidade, programas de observação com alunos das escolas públicas da região, até atividades com hóspedes frequentadores da unidade que têm por finalidade enfatizar a importância desses animais no meio ambiente. O projeto contempla também publicações sobre as aves, sendo a primeira em 1994 e a segunda em 2005, ambas com o título “Aves do Sesc Bertioga”.

Esta descoberta foi publicada no mês de dezembro de 2020, na revista ornitológica internacional British Ornithologists’ Club (BBOC), ficando à disposição de toda a comunidade científica. Isso mostra como a cooperação entre cidadãos e cientistas, por meio de projetos educativos, pode fazer a diferença na conservação da natureza (leia o artigo completo em: BBOC1404-PDFa.pdf – boc-online.org).

O projeto Avifauna realiza atividades e vivências educativas para hóspedes do Sesc Bertioga e saídas de campo mensais, abertas ao público, para observação e fotografia de aves em diferentes regiões da cidade, por meio do Clube de Observadores de Aves de Bertioga. Quem sabe em uma destas saídas de campo podemos reencontrar o raro pinto-d’água-carijó, entre tantas outras espécies de aves.

 

 

*Ornitologia é a parte da zoologia que estuda as aves (morfologia, fisiologia, anatomia e hábitos). Dicionário Michaelis (2021).