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Como reagir ao conforto de estar deitado de lado dentro do crocodilo?

Cena do espetáculo “O Crocodilo” da Cia. Estrela D'Alva de Teatro.
Cena do espetáculo “O Crocodilo” da Cia. Estrela D'Alva de Teatro.

Apreciação Crítica do Espetáculo “O Crocodilo” da Cia. Estrela D'Alva de Teatro.
Mostra de Teatro Político no ABC: identidade e resistência.
Apresentação no teatro do Sesc Santo André – 6 de abril de 2018. 

Adentramos o espaço da encenação de “O Crocodilo” e somos recebidos pela dupla de atores da Cia. Estrela D’Alva de Teatro, Lígia Helena e Paulo Gircys. Temos a visão de um cenário ainda distanciado dessas duas figuras, mas que promete muitas interações. O espetáculo começa e há um estranhamento, certa confusão sobre a fábula que nos é apresentada ao som constante de uma goteira, espelhos que nos lançam luzes como se fossemos constantemente vigiados. Nos primeiros momentos da encenação, as sensações são um tanto confusas, um anjo bipartido e aterrorizado pela história e um homem, engolido inteiro por um crocodilo. Assim, sabemos que acompanharemos a trajetória trágica dessa personagem cuja ambição fez-lhe presa de um crocodilo, mas que, ainda encerrada dentro do animal, imagina ser aquela a oportunidade para a sua ascensão social e econômica. No palco estamos diante de uma grande tela que ao longo do espetáculo vai transformando-se, de forma dinâmica, com a manipulação de elementos cênicos realizada pelos atores, jogos de luz e toda a ambientação da sonoplastia, potencializando a narrativa.

O tratamento épico do conto de Dostoiévski apresenta a absurdidade de uma situação, ao mesmo tempo em que nos instiga a compreender: do que estamos falando aqui? Uma atriz e um ator, que em cena, multiplicam-se em vozes de personagens que rodeiam esse animal misterioso e sedutor – o crocodilo. Assim como o homem que não é digerido pelo crocodilo, mas engolido inteiro, somos também, enquanto espectadores, engolidos por falas rápidas, imagens e acontecimentos absurdos que causam uma espécie de entorpecimento, até que nos vemos também dentro do animal, em silêncio e no escuro das suas entranhas: somos engolidos pela propriedade, pelo princípio econômico que está em primeiro lugar.

Neste momento da encenação, um alívio pelo silenciar das gotas e a identificação com o personagem que se diz confortável no interior do animal – seguido da reflexão de como é atrativo estar protegido por suas paredes elásticas. Levantam-se questões que nos fazem pensar: poderemos sair do crocodilo? Esse sistema que nos aprisiona em uma engrenagem injusta, no qual o trabalho torna-se uma forma de alienação, ao invés de uma contribuição criativa para a sociedade. E ao libertarmo-nos do animal, teremos alguma garantia de sobrevivência? Enquanto artistas, participantes de uma Mostra que pretende discutir o teatro político na região do ABC e, por conseguinte, o papel da cultura na formação política, temos condições de nos desvencilharmos? As questões vão se acumulando e se estendendo para os mais variados temas que hoje são refletidos pela sociedade, com a imagem de um homem que permanece deitado de lado, acomodado em um animal estrangeiro, servindo de exposição para os ganhos de terceiros – e sem a consciência disso, ao contrário, validando um discurso que pretende garantir unicamente o princípio econômico.

Dessa forma assombramo-nos, junto ao anjo da história, descrito por Walter Benjamin a partir da obra de Paul Klee: “Tem os olhos esbugalhados, a boca escancarada e as asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Voltou o rosto para o passado. A cadeia de fatos que aparece diante dos nossos olhos é para ele uma catástrofe sem fim, que incessantemente acumula ruínas sobre ruínas e lhas lança aos pés. Ele gostaria de parar para acordar os mortos e reconstituir, a partir dos seus fragmentos, aquilo que foi destruído. Mas do paraíso sopra um vendaval que se enrodilha nas suas asas, e que é tão forte que o anjo já não as consegue fechar. Esse vendaval arrasta-o imparavelmente para o futuro, a que ele volta as costas, enquanto o monte de ruínas à sua frente cresce até o céu. Aquilo a que chamamos o progresso é este vendaval.”.

Assemelhamo-nos a este anjo, que se desespera com as ruínas do passado enquanto é impelido violentamente para o futuro: as engrenagens não param, e as reflexões são cada vez mais recortadas diante de um cenário que não nos acomoda – mas fornece todo tipo de informação. Neste sentido, o cenário do espetáculo proporciona-nos esta sensação, um quadro que delimita o plano das ações, engole os atores e o público, em diversos momentos, e, em outros, expulsa-os para fora da tela para que vivenciemos as contradições da trama, narrando assim, de forma sinestésica, o que parece ser a proposta da encenação: incitar-nos à constante análise dos fatos apresentados. A encenação fornece os elementos de forma rápida, quase que instantânea. Nos assemelhamos ao crocodilo, reproduzimos a sua ação de não digerir, mas engolir inteiro.

Dessa maneira, podemos vislumbrar a dimensão do quanto estamos absortos pela história, dentro e fora desta tela, dentro e fora do crocodilo, dentro e fora, e sem compreendermos como efetivamente libertamo-nos da condição de estarmos sujeitos ao sistema neoliberalista opressor, mantenedor das desigualdades sociais, desumano por excelência.

A interpretação propõe este jogo “dentro e fora”, imbuída no princípio do teatro épico, no distanciamento brechtiano, ora os atores revezam-se no papel de mediadores da exposição do crocodilo em uma linguagem bufonesca revelando o aspecto mais grotesco da publicidade/marketing/propaganda (estatal inclusive) que tende a supervalorizar o que é estrangeiro, a cultura do outro e, por consequência, incentivar o aculturamento da população; também se revezam na interpretação da personagem empregado/colaborador, com quem temos maior empatia por ser a personagem que revela os seus medos, a raiva, a fome pela mudança, que transgride a ordem imposta para dialogar e buscar possibilidades de libertar-se daquele cenário. É instigante a cena em que o jovem rapaz, mesmo cheio de dúvidas, medos, decide infringir uma regra: pula a janela e não paga o ingresso para ter acesso à exposição, ao crocodilo, porque afinal precisava conversar com o patrão (empreendedor-engolido). E surpeendemo-nos, igualmente, com a reviravolta da “esposa do empreendedor-engolido” que se apresenta nas primeiras cenas como uma figura deslumbrada e iludida com o emprendedorismo do marido, que vislumbra a possibilidade de enriquecer rapidamente, mas que após ele ser engolido pelo crocodilo ela é engolida pela dura realidade da vida e percebe o real, a duras penas. É obrigada a arregaçar as mangas e trabalhar em sua máquina de costura, numa cena bonita e dolorida em que sozinha vemos uma mulher, e não mais a “esposa do empreendedor-engolido”, que precisa edificar a si mesma e ao seu mundo. Então notamos que ela não se ilude mais com ambição-loucura de seu marido, porque a fome está batendo à sua porta.

Os atores interpretam outras personagens, no decorrer da peça, com pouco ou nenhum recurso de objetos, adereços para composição, investindo somente na arte narrativa. Tanto é que o figurino todo preto é base para todas as persongens, tem uma aparência que, por vezes, lembra a pele de um crocodilo: duro, enrugado, pesado. Mais uma vez a composição fala à nossa sensação que desemboca em nossa razão. Mas o figurino permite, ao mesmo passo, flexibilidade suficiente para a mobilidade e transformação dos narradores em diversas personagens. Por exemplo, um simples gorro e temos outra personagem.

Esse jogo das persongens dá-se na interpretação do “empreendedor”, da esposa, do pequeno empresário contratante dos serviços deste empreendedor-engolido e o grande Empresário Estrangeiro. A Cia faz crítica à desregulamentação do trabalho onde o Estado desresponsabiliza-se sobre a seguridade dos direitos do trabalhador à medida que incentiva que todos busquem seus próprios empreendimentos, mesmo tendo à sua frente o crocodilo das grandes Corporações Internacionais, às quais não é possível concorrer ou estabelecer diálogo, apenas ser devorado... Numa cena em que o empreendedor-engolido entrega para o dono do crocodilo seu RG e sua carteira de trabalho, percebemos o único momento em que o homem esboça uma leve contradição, titubeia, tem uma dúvida se aquela imposição é o certo a fazer. Mas, não há tempo para dúvidas, rende-se à regra do descabido jogo e entrega seus pertences para permancer alojado dentro do crocodilo. Não basta estar preso dentro do bicho, o sujeito precisa perder-se de si. E essa proposta é endossada em uma das cenas finais do espetáculo em que o empreendedor-engolido veste-se com uma camiseta da seleção brasileira de futebol, uma bíblia e a faixa presidencial, fazendo uma crítica ao momento histórico em que nosso país passa. Onde todas as atrocidades podem ser justificadas por quem está no poder cobrindo-se de verde e amarelo de nosssa bandeira e pela religião cristã.

O espetáculo é indigesto, pois nos vemos, enquanto público, dentro do crocodilo, buscando romper com suas paredes tão confortáveis. Ao mesmo passo, a dramaturgia traz à cena uma fábula narrada no epílogo, que conta a mítica de São Jorge e o Dragão – a Cia Estrela D’Alva ressalta que se trata de uma fábula do povo brasileiro que foi assimilada do estrangeiro – numa situação em que a humanidade está desejosa de fazer-se de alimento para um grande dragão, munição para um grande empreendimento humano que será privilégio de alguns e miséria do povo. Desse modo, fazendo uma colagem do conto de Dostoiévski a uma lenda fortemente arraigada ao imaginário da cultura religiosa brasileira, mais uma vez, distanciamo-nos do que está sendo narrado para notar o quanto desse querer estar dentro de um crocodilo estrangeiro está no nosso modo de ser e agir enquanto brasileiras e brasileiros que somos, uma vez que já quisemos ou queremos, inclusive, ser engolidos por um dragão. O espetáculo é necessário, urgente, pois nos propicia esta reflexão de modo muito potente. Estamos o tempo todo dentro do espetáculo, mas incentivados a também ficarmos fora, reflexivos, críticos, alertas às posições que tomamos, posto que sempre estamos tomando um partido.

A estreia do espetáculo dá-se no mesmo momento em que vemos militantes nas ruas, em busca da defesa e manutenção de direitos, lutando contra retrocessos que se manifestam a cada dia. Impossível não parar para refletir sobre posicionamento. Quem somos, afinal, nessa fábula: o anjo, o crocodilo, o empreender-engolido, a mulher do empreendedor, o empregado-colaborador, o dono do crocodilo, a pessoa que visita a exposição do crocodilo? De quem é esta luta que se apresenta nesse momento da nossa história? O que isso diz da nossa região, da nossa artesania teatral no ABC? Embora objetivo em suas proposições, o espetáculo nos instiga à reflexão e ela não é confortável, não nos permite estar deitados em um réptil, alheios a esta condição.

A imagem final da encenação - uma lâmpada engaiolada - nos dá algum sinal, uma bússola: a luz atravessa as grades e atinge outros olhos. Que seja esta a nossa resistência. Vida longa ao espetáculo, sucesso e sentido renovado de resistência ao grupo e toda equipe de criação. E que, nós que vimos “O Crocodilo”, inspirados pela ação da Cia Estrela D’Alva de Teatro, com treze anos de militância no fazer teatro de pesquisa, de grupo, na região do ABC, continuemos a nos indagar e nos incomodar, constantemente, se estamos deitados de lado dentro do crocodilo.

Por Grupo Teatral Pontos de Fiandeiras
(Camila Shunyata, Roberta Marcolin Garcia e Vivian Darini)

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