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Saudavelmente se perdendo pelo centro de São Paulo

Por Mário Bortolotto

Impossível não se render a majestosidade do Teatro Municipal cravado em pleno Centro de São Paulo na Praça Ramos de Azevedo, quase vizinho ao novo Sesc da 24 de Maio.

Quando vim a São Paulo pela primeira vez, fiquei muito impressionado com a suntuosidade e a imponência. Não há como ignorar toda a beleza arquitetônica do lugar, que foi inspirado na Ópera de Paris e inaugurado em 1911, e que já recebeu em seu palco artistas do nível de Isadora Duncan, Ella Fitzgerald, Caruso, Maria Callas e Nijinski, só para citar alguns entre tantos nomes de importância fundamental.

Mas se o Teatro Municipal já tem a sua história perpetuada e devidamente tombada, há que se conhecer todo um movimento de pequenos teatros do centro da cidade que também estão fazendo história.

O Teatro Eugênio Kusnet, também conhecido já historicamente como Teatro de Arena por ter abrigado o famoso Grupo do Teatro de Arena nas décadas de 50 e 60, seria uma espécie de avô deles e que continua esbanjando jovialidade. Dia desses fui assistir uma peça da minha amiga Paula Cohen. Na primeira vez que vim a São Paulo, assisti lá a uma peça do lendário Grupo “Ponkã”, a “Tempestade em copo d´agua”, com interpretação do Celso Saiki e texto do Paulo Yutaka. Depois é que fiquei conhecendo a história do Teatro, fundado pelo diretor Zé Renato (e outros), e que foi durante muito tempo a casa de importantes nomes do teatro brasileiro como Gianfrancesco Guarnieri, Augusto Boal e Flávio Império.
O clássico “Eles não usam black tie” de Guarnieri estreou lá e ficou em cartaz durante um ano.

Vizinho ao Kusnet, há ainda o independente Teatro Pequeno Ato.

Saindo do Kusnet (Rua Teodoro Baima, 94) e atravessando a Consolação, é possível chegar na Praça Roosevelt, uma espécie de off Broadway de São Paulo com seus pequenos teatros e grande movimentação cultural. Na verdade, a Praça Roosevelt ficou marginalizada muito tempo até a chegada do Grupo de Teatro Satyros em 2000. Seus fundadores Rodolfo Vazquez e Ivan Cabral tiveram a coragem de abrir o teatro numa área totalmente avessa à frequência de público que temia por sua segurança ao se arriscar a assistir uma das peças da companhia no local. Lembro de ir beber cerveja no “La Barca”, bar que fica ao lado do teatro e levar amigos para beber comigo tendo que insuflar coragem neles. A minha peça “Hotel Lancaster” com direção de Marcos Loureiro inaugurou o horário alternativo do teatro.

Graças à iniciativa dos Satyros - que,  alguns anos depois, compraram o espaço do Teatro X e inaugurou a Sala Satyros 2 - outros teatros também foram abrindo suas portas.

O mais bem sucedido deles talvez seja o Espaço dos Parlapatões que é outro Grupo com uma história já sacralizada em São Paulo. O Grupo foi fundado em 91 e em 2006, já sob a gerência da dupla Hugo Possolo e Raul Barreto, abriram na Praça Roosevelt o Espaço dos Parlapatões, abrigando intensa programação com peças do Grupo e outros espetáculos que concorrem à pauta.

A Praça Roosevelt ainda abriga o Teatro Heleny Guariba (antigo Studio 184) e o Teatro do Ator. E os teatros receberam um vizinho ilustre que é a SP Escola de Teatro, com cursos regulares de formação de profissionais para teatro.

E desbravando o belo centro de São Paulo ainda é possível encontrar outros teatros como o Teatro Itália (Rua Ipiranga, 344) que fica no andar térreo do célebre Edifício Itália (o segundo mais alto de São Paulo) e o Teatro Aliança Francesa, na General Jardim, 182, perto de uma região que vem ganhando notoriedade depois de restaurantes como A casa do Porco terem se instalado no local.

Há ainda o Teatro Paiol (Rua Amaral Gurgel, 164), infelizmente em uma zona da cidade que merecia uma revitalização, e o Teatro Jaraguá que fica no Novotel Jaraguá (Rua Martins Fontes, 71) com programação também ininterrupta.

E, como alternativa, ainda há o pequeno Teatro do Cia. Pessoal do Faroeste, o Sede Luz do Faroeste, encravado em plena Rua do Triunfo, 301, região mítica de São Paulo que ficou conhecida com o “berço do cinema brasileiro”.

A cidade tem uma tradição teatral que permanece inabalável seja com os seus velhos e grandes teatros de sua época áurea ou com os pequenos, inquietos e movimentados teatros que nasceram da persistência e coragem de grupos de profissionais apaixonados pelo fazer teatral. Agora esses teatros terão a companhia do Sesc 24 de Maio que, sem dúvida, será um grande passo para a tão almejada revitalização do centro da São Paulo, essa região que me deixou embasbacado na primeira vez que estive na cidade.

Quando Caetano Veloso escreveu os versos de “Sampa”, em 1965, deve ter sofrido o mesmo impacto que tive ao contemplar o Teatro Municipal em 1980. O impacto de uma paixão que insiste em não ter fim.

Mário Bortolotto é dramaturgo e diretor do Grupo de Teatro Cemitério de Automóveis fundado em 1982 e há 21 anos radicado em São Paulo. Atualmente com sede na Rua Frei Caneca, 384 – perto do Centro de São Paulo. 

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