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Lucélia Santos estreia monólogo sobre Santa Teresa D’Ávila

Foto: Wilton Montenegro
Foto: Wilton Montenegro

Em 25 de agosto, o primeiro monólogo de Lucélia Santos tem sua estreia no Sesc Santo Amaro.

O espetáculo, inédito em São Paulo, é baseado nos escritos de Teresa D'Ávila para investigar um indivíduo: Teresinha, uma mulher que se casa com Deus. André Sant’Anna assina a dramaturgia e Bruno Siniscalchi, a direção. Por convite do diretor, Lucélia atua no monólogo com “texto para refletir sobre a passagem desta vida humana e o que estamos mesmo fazendo aqui hoje”, segundo a atriz. Para a construção da personagem, Lucélia conta que usou o próprio livro de Teresa e muitos dos filmes que foram produzidos sobre a santa.

A história

Para além da santidade, a história concentra seu foco na vida e morte de uma mulher que escolhe a reclusão para viver unicamente de sua paixão por seu esposo Deus-Jesus. O discurso de Teresinha apresenta o desejo como possibilidade de se transcender, trazendo o sagrado para o plano dos homens.

A cenografia

No palco, quatro toneladas de terra são espalhadas para ambientar o território de Teresinha, clausura na qual vive em solidão. Padecendo de frágil estado de saúde pela constante paixão febril, no desenrolar da história, ela desenterra do palco objetos a que recorre para viver a sua saga.

A religiosidade

Perguntamos à atriz qual é a contribuição de Santa Teresa D’Ávila para o catolicismo, considerando sua interpretação e suas próprias crenças religiosas. Lucélia vê além da religião católica: “no plano espiritual ela foi uma grande intelectual, uma mulher inteligente e culta que viveu em 1.532 e que superou todas as possibilidades de vida para uma mulher daquela época. Sua luta interna entre a lama que quer voar e os aprisionamentos do ego e da razão a atormentaram por toda a vida”. E ainda completa dizendo que é uma das vidas mais impressionantes que tem visto e estudado.

A dramaturgia

Mais que uma adaptação, o texto da peça é barroco e leva o espectador a uma mulher apaixonada do século XVI. Em entrevista, autor e diretor falaram sobre a mensagem do espetáculo.

EOnline – Como foi a adaptação dos textos antigos para a dramaturgia? A mensagem conseguiu atravessar os séculos?

Bruno Siniscalchi – A dramaturgia de Teresinha não está dentro de uma ideia de "adaptação". A literatura de André tem um imenso interesse em amplificar vozes - fazer do texto um ritmo de fala e soltar diante de nós, selvagemente, a lógica de um personagem. O que procuramos com esse trabalho foi investigar um indivíduo: uma mulher que se casa com Deus. Assim, estabelecemos uma dramaturgia que são camadas que se misturam: a escrita de Teresa D'Ávila, com suas sintaxes barrocas - que sinalizam uma fala da solidão, do claustro; uma fala que é escrita, feita para ser lida -, e a escrita do André, que amplifica a voz febril de uma mulher que se apaixona por Deus.

André Sant’Anna - O que escreveu Santa Teresa D'Ávila é universal e atemporal, já que se trata de Deus. Claro, a linguagem utilizada por Santa Teresa é de uma época específica. O que fiz foi tornar o texto mais barroco, perpassando por diversos estados de espírito, humores a santa. No texto final, há momentos em que Santa Teresa é mundana, tratando a Jesus/Deus como se este fosse de fato um ser humano vivo. É quando ela conversa com Jesus, como se estivesse conversando com um amigo íntimo, ou até mesmo um namorado. Em outros momentos, ela é tomada pelo sobrenatural e fala através do Espírito. Tentei fazer uma mescla entre uma linguagem sagrada, espiritual, com a linguagem humana, tratando de assuntos humanos. Mas não há qualquer adaptação de estilo, nem expressões contemporâneas de linguagem. Na peça, Teresinha ainda é uma mulher do século XVI.

EOnline – A devoção de Teresa é uma entrega total, de corpo e alma. Qual a relação que vocês fariam deste aspecto quase obsessivo de adoração da santa com as relações amorosas de hoje?

B. S. – O sentido de colocar, hoje, em cena esse indivíduo - Teresinha, uma mulher que se casa com Deus -, se dá em fazer acontecer o gesto revolucionário que ela contém: através da paixão - e a transgressão às leis, regras e convenções inerentes ao desejo humano - Teresinha coloca, a cada noite no teatro, o sagrado no plano humano.


A. S. – É comum que se associe Teresa D'Ávila a uma santa que tinha orgasmos na relação espiritual com Deus/Jesus. Tentamos fugir dessa associação simplista. A entrega de Teresinha a Cristo/Deus é quase uma relação zen. Trata-se de desapego total do mundo em que vive e de si mesmo. Teresinha tem pressa para deixar a realidade mundana, reafirmando a toda hora que a vida real é um desvio do verdadeiro caminho, que a única coisa de real interesse para um ser humano é a vida junto a Deus. Ela exercita e incentiva, o tempo todo, o desapego a tudo o que é desse mundo, guardando para a vida eterna todo o prazer e felicidade que possa haver na existência. Teresinha quer o Nirvana, a integração total ao mundo espiritual, ao amor total nascido na alma e na carne.



 

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