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Corpo e movimento no centro de São Paulo: o espírito da Ágora

 

por Odilon José Roble


A Ágora Grega antiga, aquele espaço que apenas de modo aproximado podemos traduzir por “praça pública”, era um local que, além de exibir uma elegante arquitetura, correspondia à excelência do convívio cidadão. De modo algum a Ágora se prestava apenas à passagem ou mero ornamento da paisagem urbana, antes disso, era o espaço de encontro e da experiência de cidadania. Em outros termos, era na Ágora que o grego se tornava efetivamente grego, pois exercia seu papel de cidadão (“aquele que à cidade pertence, usufruindo de seus direitos e desempenhando os seus deveres”).

Com isso, entendemos que o elemento passivo do conceito de cidadão é o título, no caso dos gregos antigos, obtido perante prova da paternidade ou por eminentes serviços prestados. Já a parte ativa do status de cidadão é o exercer de sua presença na vida, no cotidiano, o que vale até hoje. O cidadão vive a cidade com seus pensamentos, com seus sentimentos e com os seus gestos. Em razão dessa pluralidade é que, na Ágora, estavam dispostas edificações variadas, como templos, oratórios, teatros, stoas, ginásios.

Nós, cidadãos modernos, nos acostumamos com a especialização dos espaços. O teatro em um bairro, a academia no outro e, entre eles, quem sabe uma praça com pessoas em passo apressado cortando o caminho. A presença dessa variedade de atividades na Ágora se dava pela indissociabilidade das ações cidadãs. Platão, por exemplo, que se chamava Arístocles, era um forte lutador (de onde o apelido Platão - “de ombros largos”), mas que todos conhecemos por ter sido, também, um dos mais brilhantes filósofos da história. Nosso cacoete moderno quer associar a cada pessoa um papel, a cada local uma função. Mas a Ágora e a cidade são um corpo só, pois elas são feitas de cidadãos ou, como já citei, de pensamentos, sentimentos e gestos.

O Sesc inaugura mais um espaço, a unidade 24 de Maio, no centro da maior cidade do Brasil. E lá se tem teatro, música, dança, esportes, jogos, brincadeiras, educação, política, lazer, café, vista para a cidade, livros, oficinas, enfim, convivência. No que diz respeito ao corpo e às atividades físicas, tema ao qual dedico minha filosofia, a modernidade encaixotou os corpos em espaços herméticos, isolados, distantes da cidade pois distantes da convivência. Um certo modo de ver a vida moderna, inspirada pela produtividade, elegeu formas de se mover que isolam os corpos e automatizam as ações, não mais vistas a partir de qualquer relação senão consigo mesmas.

O grande desafio das metrópoles, hoje, é o de retomar o espírito da Ágora no que diz respeito à convivência e à vitalidade, em um local onde as práticas corporais sejam exercício de cidadania e expressão do prazer pela vida. O centro de São Paulo é feito de gente, muita gente, todo tipo de gente. A amálgama de pessoas que só o Brasil soube criar é expressa em toda sua potência nas ruas do centro paulistano. Mas como retomar o projeto da Ágora frente a este desafio da diversidade? Se na realidade da polis o convívio parecia espontâneo ou até inevitável, o que o contemporâneo nos apresenta é a necessidade de elementos agregadores, dispositivos de interesse para a retomada de uma vitalidade em risco.

O esporte, a ginástica, a dança, entre outras experiências de movimento, são práticas que podem reconectar o cidadão à cidade. Estar próximo, fazer junto, querer em comum, desafiar, ganhar, perder, mover-se com, são experiências que as práticas corporais favorecem e que alimentam a areté, ou seja, a virtude da “excelência”, com a qual podemos exercitar melhor o grande projeto cidadão, que é o saber viver. A personificação de Areté na mitologia é a de uma deusa filha de Harmonia e de Diké (a justiça). Assim, a vida ética e equilibrada é virtuosa e excelente.  

Parece que os gregos nos ensinam que, saber viver, é estar junto dos meus concidadãos, conviver na Ágora, celebrando meu corpo e minha vitalidade. É no exercício da Ágora que a virtude se estabelece, pois como disse Aristóteles, “quanto à virtude, não basta conhecê-la, devemos tentar também possuí-la e colocá-la em prática”. Quando o Sesc 24 de Maio for inaugurado, imagino que a cidade escoe para seu interior e, pleno de cidadãos, o prédio torne-se Ágora. Espaço no qual as práticas corporais deixam de ser apenas modalidades para encontrarem seu justo valor no projeto do saber-viver.

Odilon José Roble é Filósofo e Doutor em Educação, professor da Faculdade de Educação Física da Unicamp

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