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Música e o Centro de São Paulo

Por Wagner Dini de Castro

É preciso voltar 30 e poucos anos no tempo para contar como começou minha relação com a música e o centro de São Paulo. A linha 8307 ligava o Bairro Siciliano à Praça do Patriarca. Para um quase adolescente que tinha acabado de conquistar a autonomia pra andar de ônibus sozinho, ir pro centrão era aventura certa. Trânsito louco, gases poluentes saindo em profusão dos escapamentos, office-boys "fazendo a porta" do busão. Olho esperto no movimento geral.

Ali na rua Dr. Falcão ficava a Woodstock, loja pioneira de discos, vídeos e roupas que funcionava como um portal para um mundo distante de onde surgiam sem parar novas bandas de rock, principalmente de metal. Eu estava neste time dos cabeludos com camisa preta de banda: Black Sabbath, Motörhead e Iron Maiden já faziam minha cabeça; Metallica e Slayer chegavam para ocupar o posto das bandas mais cabulosas do momento. Música brasileira? Nem pensar.

Em 1986 - ano em que se falou pela primeira vez da destruição da camada de ozônio, ano que viu Chernobyl vazar radiação mortal e que no Brasil faltou comida nos supermercados - era praticamente obrigatório escolher uma trilha sonora para manter a conexão com sua turma. A minha falava do fim, do caos, da morte e da vida após a morte. Na verdade, eu entendia muito pouco das letras. O que me pegava era o peso instrumental, a massa sonora de guitarras, bateria e baixo.

Mas o centro não era só um lugar onde eu ia comprar música. Ali existia gente que eu não via nos bairros. Homens-placa, artistas de rua, malandros. Ali existia um comércio que só o centro possuía, coisas proibidas para menores de 18 anos brilhando em neon na cara de um menor de 18 anos. Tinha a imensidão do Vale do Anhangabaú e o Viaduto do Chá, tinha a beleza imponente do Teatro Municipal, tinha as galerias. Andar pelo centro era fascinante.      

Corta para 2017. O cruzamento das ruas 24 de Maio com Dom José de Barros é meu ponto de partida. Ao redor de mim transita uma infinidade de gente, cada um do seu jeito, carregando seus traços, diferentes histórias de vida. Os olhos agora estão atentos à beleza que só a diversidade proporciona. É aqui que o Sesc inaugurou mais uma unidade. Um prédio antigo remodelado com uma fachada de vidro que reflete a arquitetura de seus vizinhos durante o dia e que expõe a beleza de seu interior amplo e convidativo de noite.

Coloco-me no meio do povo com neutralidade, minha roupa não entrega mais o som que ouço. Nestes 30 e poucos anos, o rock me levou pro blues, que me levou pro jazz, que me levou de volta pro rock com a mente muito mais aberta; a música eletrônica dos anos 90 refez minhas sinapses neurais e me fez aceitar que a música dançante também podia ser pesada e hipnótica: techno, tech-house, house music. Daí foi só voltar na linha cronológica pra conhecer a raiz do R&B, soul, funk. Psicodelia e pop. No meio disso tudo apareceu Pixinguinha, Cartola, Baden Powell, Piazzolla e muitos outros tiozinhos geniais. Estão todos vivos por aqui!

Além dos sons produzidos pelos repentistas, sambistas, DJs e orquestras que ocupam o centro, este lugar é especial por causa das pessoas que por aqui circulam. São pessoas que vivem a dimensão democrática da cidade sem medo, pessoas pra quem as palavras ‘mazela’, ‘deterioração’ e ‘revitalização’ fazem pouco sentido, pois este lugar representa melhor do que qualquer bairro o que é de fato o Brasil. Gente que vive o centro como ponto de encontro.

Aqui, amantes da música se alimentam nas lojas de discos em plena era do streaming e das nuvens de arquivos. A concentração deste comércio é gigantesca: num raio de 200 metros é possível contar 20, 30 lojas que se especializaram em black music, reggae, rock, mpb, etc... Há também skate shops, estúdios de tatuagem, lojas de bonés, tênis e acessórios e muitas outras que compõem parte da cultura urbana, passando invariavelmente pela música. O horário comercial vai terminando e o volume sobe e se mistura: são vozes, tambores e grooves africanos saindo da galeria; beats graves bombando anunciam uma festinha em pleno calçadão; pandeiros, cavacos, surdos e violões convidam para uma cerveja nos bares da esquina.

Saudosismo não cola, ainda bem. O centro de hoje é melhor do que aquele que me seduzia na juventude. Aqui a música se multiplica numa combinação impensável para minha época de garoto. A vida pulsa com a multiculturalidade de São Paulo, que desde a minha juventude pede um olhar atento, curioso e vivo.

Wagner Dini de Castro, formado em Comunicação Social, é assistente técnico da Gerência de Ação Cultural do Sesc.

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