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Da lona ao largo, do largo ao palco

Por Lucas Molina

Há uma curiosidade intrínseca por parte do ser humano em desbravar espaços novos e por lá reinventar os modos e usos, entretanto, não é de hoje um crescente movimento de redescobrir espaços já existentes, talvez pela escassez de lugares novos ou pela necessidade de habitar de forma orgânica a cidade. Ao revisitar tais espaços encontramos camadas de ocupação, culturas e usos humanos. O presente é uma mistura amalgamada entre passados que compuseram o espaço tempo, sendo a sobreposição de diversas vidas e histórias: não há como imaginar o contemporâneo sem compreender as diversas etapas que passamos para chegar a tal status.

Alguns desses lugares podem nos despertar sentidos e sentimentos ímpares, é impossível, por exemplo, passar pelo centro da cidade e não sentir a energia que impulsionou as idas e vindas que transformaram São Paulo nesta importante cidade do cenário mundial.

Ouvi ao longo da minha vida diversos relatos que mesclavam ficção e realidade sobre esse espaço e, ao passar por lá por vezes, me transporto para o passado e tento imaginar o futuro. Ao visitar o Largo do Paissandu quase sinto o cheiro do café e a ebulição que esse local evoca na história da arte circense nacional. Imagino o espaço borbulhando de gente vinda dos quatro cantos da terra trazidos pelas andanças do circo e que achavam ali, às segundas-feiras, dia de folga dos artistas, novos picadeiros para ampliar seu repertório artístico, bem como, oportunidades de intercâmbio com outras linguagens artísticas, ou mesmo receber notícias de quem estava em circos distantes.

Cada prédio um personagem, cada rua uma história e cada pessoa que por aqui passou ou passará deixou algo de si e levou algo. Piolin, Silvio Santos, Luiz Gonzaga, Vicente Celestino, Mazzaropi, Grande Othelo entre outros ilustram a história e minha imaginação. Neste momento tão comum de redescobrir espaços já existentes, de buscar compreender quem somos por meio dos que nos antecederam é momento de voltar a olhar para o centro não só para o espaço físico e afetivo, e sim para as potencialidades que ele teve, tem e terá.

Os anos 2000 se propõem com avanços e recuos nessa renovação: a chegada de centros culturais na vizinhança, a construção do Centro de Memória do Circo com o seu charmoso café dos artistas, o movimento intenso de outras culturas que encontram nas redondezas seu local de aprendizado, contato e crescimento.

Se no passado o Paissandu e sua vizinhança foram ocupados por lonas e artistas itinerantes, cafés efervescentes, hoje o circo ancora suas estacas também nas relações afetivas com a cidade por meio das ações nos centros culturais, na rua, no farol, nos festivais e porque não nas fachadas espelhadas da urbe. Que surjam novos espaços para o circo e que se renovem as memórias dessa linguagem democrática que foi, é e sempre fará parte da construção das artes nacionais.

Vida longa ao Circo!

Lucas Molina é Assistente da Gerência de Ação Cultural do Sesc SP.

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