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As pessoas arquitetam a cidade

Por Rodrigo Gerace

Toda vez que mergulho no centro de São Paulo me surpreendo com a imensidão de “centros” ali existentes, nunca homogêneos, cheio de contradições, disparidades socioeconômicas, fusão de espaços, diferenças culturais. Do hype ao abandono, da organicidade das ruas às instituições estabelecidas, dos Bancos aos camelôs, das ocupações aos shoppings, o centro é como o coração de São Paulo. Ou um dos corações, sempre bombando, enfartando, em movimento, emanando um curto circuito que não pára. São Paulo dorme?

Na sociedade do cansaço, sinto o centro como síntese das contradições paulistanas. Basta caminhar, flanar, flertar, que a região te apresentará diversas cenas, como num filme ao vivo em plano seqüência. Pornô, terror, comédia, aventura, indie, está tudo lá.

Não me lembro quem, mas alguém me disse “o futuro é andando”. Gostei. É no fluxo do caminhar que as descobertas aparecem, inclusive a cidade se descortina. Daí a importância dos espaços abertos para as pessoas, das avenidas aos parques, dos centros culturais às ruas, dos vãos aos espaços de convivência. O fluxo de pessoas dá sentido ao espaço, projeta novas possibilidades que ele apresenta ou esconde (até então).

Todos somos anônimos no Centro. E o bacana é isso: o centro desgourmetiza. Ele reitera o espaço público como a “Ágora” grega, onde todos são protagonistas da cidade e na cidade. Em ação, transmutação e rotação – as pessoas arquitetam e acordam esta SP cansada. A cidade para as pessoas.

Voltar-se ao centro é também startar a memória. Logo que vi a maravilhosa Unidade do Sesc 24 de maio lembrei-me da antiga Mesbla por onde eu passeava com minha família quando criança. A diversão residia nas infinitas escadas rolantes, a vanguarda do Playcenter. Daí me lembro de minha mãe dizendo como o centro era lindo mas precisava de atenção. Lembro ainda de amigos comentando sobre os antigos cineclubes e cinemas da região, da Cinelândia ao Cine Bijou, do Bexiga ao Marabá, do Ipiranga ao Marrocos, da Olido ao Arte Palácio, e tantos outros cines que não freqüentei. Saudades do que não vivi.

Lembro de ter lido depoimentos de artistas que moraram no centro, dos Mutantes ao Gil, de Caetano a Zé Celso. Lembro ainda do vídeo “Livre outra vez” com a Rita Lee cantando no meio do centrão. Rememoro a única sessão que assisti no Cine Ipiranga. Era Evita, filme xulé com a Madonna neste cinema absurdamente belo, com duas platéias, que infelizmente fechou. Lembro da primeira Virada Cultural, onde o centro se apresentava como debut para muitos. Lembro ainda, em experiência recente, de um distribuidor que resiste no centro com cinema amplo, ali perto da Olido, com poltronas de couro vermelho, onde são exibidos filmes pornôs e distribuídos filmes restaurados de Bergman, Lynch e Scorsese...

É triste constatar o abandono de tantas salas de cinema no centro ou mesmo vê-las transformadas em instituições religiosas. Poderia ser o contrário: igrejas metamorfoseando-se em templos de cinema. Por outro lado, equipamentos culturais, tais como o Sesc, têm enfatizado a importância da difusão cinematográfica com exibições regulares em espaços alternativos, como auditórios, teatros e também ao ar livre. A tela em todos os lugares e para todos os públicos. Da sala escura à Ágora pública.

A arquitetura do centro me faz notar a edificação da memória. Neste sentido, diante de tantas lembranças, é fundamental mergulhar na história da região para não perder de vista o pensamento expandido sobre arte e sociedade. Arte em movimento que ressalta as culturas - no plural. E tal como o cinema que finca a persistência da memória, é preciso perceber o passado deste centro nervoso, onde cultura é resistência e faz a maré crescer, agitando-a em movimento num futuro sempre já.

Rodrigo Gerace é assistente de cinema do Sesc SP.

 

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