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da pena que já há tanto faz rir

Atores do experimento cênico Mais que Pena. (Foto: Cynthia Medeiros)
Atores do experimento cênico Mais que Pena. (Foto: Cynthia Medeiros)

por amilton de azevedo

O Teatro do Rinoceronte irá, em 2019, produzir e estrear o espetáculo “Mais Que Pena!”, partindo da vida e obra de Martins Pena, considerado por muitos o fundador de nossa dramaturgia nacional. Com suas comédias de costumes, teceu com habilidade um vívido retrato de toda uma época. Infelizmente, não apenas pelo talento de sua pena, mas pelo atraso de nosso país, muitos dos alvos de suas críticas sociais ainda são parte da realidade brasileira.

Como pontapé inicial para o projeto a ser desenvolvido, o grupo apresentou, na categoria de abertura de novos processos, uma leitura dramática de três textos do autor. A residência artística foi de Calixto de Inhamuns – que assinará a dramaturgia a ser trabalhada no próximo ano. Assim, a leitura realizada já se estabelece como um sobrevoo pela obra de Pena, servindo de pesquisa para o coletivo em conjunto com Inhamuns.

Para tal leitura, foram convidados atores de outros grupos da cidade. Dessa maneira, ainda que o foco do processo artístico não seja esse, é interessante refletir acerca da possibilidade da leitura dramática como parte não apenas da pesquisa criativa, mas do próprio treinamento do ator em contato direto com o material.

Além disso, Inhamuns astutamente já aproveitou este momento para analisar, na lida direta com a dramaturgia de nosso primeiro comediógrafo, as características em comum aos textos escolhidos. Assim, na sua costura, a presença de um narrador permitiu não apenas selecionar cenas específicas – visto que a leitura na íntegra das três obras seria demasiado extensa – mas, principalmente, fazer uso desta figura para revelar os procedimentos e mecanismos da carpintaria das comédias de Pena.

O jogo com tais procedimentos será fundamental no trabalho que virá a seguir. Os temas, personagens e situações serão apresentados em fricção não só com os nossos tempos – e suas demandas específicas – mas também com as múltiplas possibilidades formais que se desenvolveram ao longo dos mais de 150 anos que nos separam dos tempos de Pena.

O grande desafio para o Teatro do Rinoceronte será confrontar o retrato daquela época à nossa compreendendo os diferentes contextos. A leitura dramática aponta já para certa preocupação neste sentido, mas nunca é demais reforçar a responsabilidade que há neste como lidar com obras que dialogavam com outra sociedade. Se a influência do capital estrangeiro já era criticada em “Os dois ou O inglês maquinista” na figura de Gainer e esta ainda é uma questão atual, é necessário refletir sobre como utilizar uma figura como Negreiro – “negociante de negros novos”, diz a lista de personagens da obra – em uma narrativa contemporânea.

O Teatro do Rinoceronte almeja buscar na fundação de nossa comédia verdadeiramente nacional formas de escancarar os absurdos de nossa sociedade e seus costumes ainda hoje. Trata-se de uma tarefa árdua, mas com muito potencial. E o humor, com seu inegável poder, nunca é neutro. Com os recursos de Pena retrabalhados na dramaturgia de Inhamuns e sob a direção de Imara Reis, resta ao grupo encontrar em ação como, na atualidade, fazer com que o público ria de si mesmo e não do outro.

 

*amilton de azevedo é artista-pesquisador, crítico e professor. Escreve para a Folha de S. Paulo e para sua página, ruína acesa. Responsável pela disciplina "Estudos sobre o ensino do teatro" na graduação do Célia Helena Centro de Artes e Educação.

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