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Não é sobre futebol...

Apesar do título, eu quero mesmo é falar de futebol! Se você é daqueles que pensa que futebol é apenas um jogo com pessoas correndo atrás de uma bola, volte duas casas, respire fundo e leia esse texto. Pensar dessa forma é limitar demais um esporte que passou por muitas mudanças e que até hoje influencia multidões, dentro e fora do campo. Já dizia Nelson Rodrigues “No futebol, o pior cego é o que só vê a bola”. Quando Charles Miller trouxe aquele objeto na bagagem*, ele jamais imaginaria que seria o responsável por mudar uma nação e fazer esse lugar ser conhecido como "o país do futebol". Foi aqui nessa terra tupiniquim que o esporte inglês conheceu a ginga afro-brasileira e com ela descobriu a sua verdadeira essência, profetizada pelo próprio Nelson: “A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana (...) Por trás da bola há o ser humano." A bola é só um detalhe, "um reles, um ínfimo, um ridículo detalhe". (*Essa é somente uma das versões sobre a introduçao do futebol no Brasil).

Só quem já foi a um estádio de futebol consegue entender a emoção envolvida naqueles 90 minutos. Lembro claramente da primeira vez que entrei naquele caldeirão com as torcidas gritando e empurrando os times. É contagiante! Confesso que não fui a muitas partidas e infelizmente não tive essa oportunidade quando criança. Por falta de dinheiro e por medo da violência ( sim, tem muita coisa que precisa mudar) meu pai não conseguiu me levar, mas acredito que todos os pais deveriam levar os filhos para assistir a pelo menos uma partida no estádio. Esse momento dos pais ( e inclua mães também) com os filhos e filhas torcendo e se divertindo deve ser uma emoção indescritível para ambos. Numa final de campeonato, então! ( já pensou?!).

Seja numa partida da terceira divisão ou na Copa do Mundo, quando a bola estufa a rede tudo fica diferente. As brigas cessam, nem que seja por uma fração de segundos e o desconhecido torna-se o seu melhor amigo; você o abraça sem nem se importar com o suor escorrendo pelo corpo do sujeito.

No Brasil as crianças já nascem com a bola no pé. É difícil encontrar uma pessoa que não tenha chutado uma bola na infância. É o brinquedo mais barato e democrático. Quando eu era criança, tive muitas daquelas bolas ‘dente de leite', baratinhas e que não duravam nem uma semana, mas proporcionavam a alegria de uma conquista de um campeonato mundial. A necessidade nos obrigava a testar a criatividade e a bola feita com meias velhas, recheadas de papel, era a nossa parceira de `treinos`. Eu morava numa grande ladeira e não dava pra jogar na rua. O quintal de casa era grande mas cheio de buracos. A maior parte das vezes jogava descalço e o 'tampão do dedão do pé' vivia esfolado (quem nunca?). Sem falar nas cicatrizes que deixaram meus joelhos totalmente tatuados ( mas "um joelho ralado dói bem menos que um coração partido", né? haha).

Sem perceber a gente aprendia as coisas mais importantes da vida:

família, companheirismo e lealdade.

Na rua sempre tinha aquele vizinho que era o dono da bola. Presenteado pelo pai num aniversário qualquer, ele tinha uma daquelas bolas de capotão, resistentes e que aguentavam o tranco nesses campos improvisados e nas partidas que aconteciam nas ruas próximas. Em todos esses casos, a bola era compartilhada e o jogo só fazia sentido quando os times estavam completos. Jogando descalço na rua, usando os chinelos para fazer a trave, no quintal esburacado ou no terrão com chuteira rasgada, a gente levava aquilo a sério, mas sem descartar o que a atividade proporcionava: o encontro e a amizade. Depois do jogo sempre rolava aquela resenha, muitas vezes regada à tubaína paga pelo time derrotado, mas que também participava da celebração. Sem perceber a gente aprendia as coisas mais importantes da vida: família, companheirismo e lealdade.

Antes que você venha com duas pedras na mão dizendo “quem é esse cara com essa visão toda romantizada?”, pode ficar tranquilo, eu tô ligado que a realidade não é esse conto de fadas. Se Nelson falou, eu concordo e assino embaixo: “O que procuramos no futebol é o drama, é a tragédia, é o horror, é a compaixão”. Eu sei que no estádio ou na várzea, no campo de jogo a discussão e a violência andam de mãos dadas, mas essas coisas precisam ser observadas. E nesse exercício de observar os outros, sempre enxergamos a nós mesmos. Tudo isso que tenho narrado não é nada diferente do que percebo hoje com esses meninos do Futebol Callejero. São apenas garotos cheios de lealdade, querendo ocupar seu espaço.

“O que você quer ser?” Pode perguntar pra qualquer moleque na periferia: trabalhar de chuteira é o que ele vai te responder, mas o que os garotos querem mesmo é o reconhecimento, querem ser vistos e principalmente serem ouvidos. E foi essa escuta que encontraram no Sesc Campo Limpo. Aqui na Zona Sul, ("invés, estresse concentrado"), eu vi um lugar sendo modificado. Como o próprio professor Roberto disse: “o Futebol Callejero é apenas o caminho que encontramos para ensinarmos e aprendermos sobre o acolhimento” e com esse esporte coletivo, a discussão deu lugar para o diálogo.

Tanta coisa a gente conseguiria resolver se escutasse mais! Quando eu falo sobre futebol, eu tô falando sobre a vida. A bola do mundo está sempre girando, impondo novos  desafios. Isso aqui é um grande jogo. Cada vez que um garoto corre atrás de uma bola, ele correndo atrás dos próprios sonhos, seja o de ser um grande jogador, um médico ou um músico. Eu tô falando é de apenas um garoto que corre, pra se tornar um grande ser humano.

Por Ronaldo Domingues
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O ESCRETE DO SESC CAMPO LIMPO

Essa é a história de uma partida que jamais foi narrada.
A equipe acabara de levar um gol mas nada a abalava. Foram meses de treino, estratégias e esquema tático alinhados. Com muita calma e sensatez, os jogadores se organizaram, pegaram a bola do fundo da rede, colocaram debaixo do braço e foram jogar. De pé em pé, a bola passeava pelo escrete do Sesc Campo Limpo. Cada um com sua habilidade, fazia o que podia com a bola. Para alguns era só mais uma jogada, não ia dar em nada, mas a equipe e a torcida ainda acreditavam. Uma bola alçada na área, o grito da torcida a empurrava e lentamente, caprichosa, no fundo da rede a bola repousava. Foram poucas as vezes que eu vi tanta alegria e empolgação naquele lugar. E foi naquele dia, naquele pequeno momento do gol que o grito engasgado na garganta pode ser pronunciado: "o trabalho fez sentido. Vale a pena acreditar!" Não era a conquista do campeonato, mas era o escrete do Campo Limpo que marcava um verdadeiro gol de placa.

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